Violão erudito e popular
Mineiro Aliéksey Vianna lança CD duplo “Ritmos e Danças”
Existem várias maneiras de promover o diálogo entre o popular e o erudito, e a melhor delas é passar longe do caça-níqueis que a indústria fonográfica convencionou chamar de “crossover’’.
É o que faz o violonista mineiro Aliéksey Vianna em seu trabalho “Ritmos e Danças”, ambicioso disco duplo que evita o pop, mas também se distancia das correntes mais impenetráveis de música erudita contemporânea.
Aos 34 anos, Vianna acumula 25 prêmios em concursos de violão, por aqui e no exterior. De sólida técnica erudita, já atuou sob regência do papa das vanguardas Pierre Boulez, mas também empresta com regularidade sua pegada vibrante e incisiva ao jazz e à música improvisada.
Gosto eclético
Com obras para violão e instrumentos de arco, o disco Ritmos e Danças reflete o gosto eclético do intérprete. Ao lado do melhor grupo brasileiro de câmara, o Ensemble SP, e do jovem Quarteto Harmony, de Xangai (China), ele interpreta criações de sete compositores das três Américas.
Mostrando como os rótulos podem ser relativos, as expectativas frequentemente se invertem ao ouvir o álbum. Assim, a obra mais “experimental’’, e de audição mais difícil, é a que dá nome ao disco, de autoria do “popular’’ Egberto Gismonti, 62, enquanto as Cuatro Danzas Sibilinas, do “erudito’’ mexicano Eduardo Angulo, 55, revelam um melodismo neorromântico que cai no ouvido com facilidade.
Estão lá o violonista virtuose paulista Sérgio Assad, 57, o jazzista norte-americano Ralph Towner, 69, o singelo argentino Carlos Guastavino (1912 – 2000) e o rico universo do uruguaio Guido Santórsola (1904 – 1994).
Mas, em meio a essas distintas poéticas e sotaques, talvez o destaque fique mesmo para o empolgante Quintetto de Leo Brouwer, uma obra-prima de vigor e espontaneidade que o compositor cubano, hoje com 70 anos, escreveu quando tinha 17.
RITMOS & DANÇAS
Artista: Aliéksey Vianna
Gravadora: independente
Avaliação: ótimo
IRINEU FRANCO PERPETUO
FOLHA DE SÃO PAULO - 26 de janeiro de 2010
“Desta vez veio algo inesperado, mas completamente indispensável.
A era das grandes companhias de discos de música clássica relegou o violão a um plano bem pouco honroso. O apetite insaciável por se ouvir mais do mesmo determinou que o repertório de violão aparecesse de uma forma distorcida e liliputiana, uma compilação de pequenas peças características de caráter vagamente espanholado, com uma ou outra transcrição de Bach para engrossar um pouco o caldo. No momento em que os ouvintes se deram conta de que essa estreiteza talvez não fosse de verdade, abriu-se a temporada de caça às raridades. Algumas interessantíssimas; algumas, bem, talvez devessem ter permanecido no reino das curiosidades.
Acontece que o violão tem 500 anos de repertório original, música da Escócia até o Chile, do Egito ao Japão; tem uma tradição hispânica, mas também uma tradição germânica, italiana ou norte-americana; tem pecinhas singelas e grandes sonatas; música bastante convencional e música brutalmente experimental; música de forte base étnica e idiomatismo instrumental, mas também música totalmente abstrata; e, para lá da música solo, uma quantidade imensa de boas obras de câmara e de canções.
Basta se encontrar um intérprete-investigador, disposto a experimentar, a escolher sem apego, a fazer a música funcionar e a dialogar inteligentemente com seu entorno cultural.
Daí temos um disco como este, inesperado e indispensável. Inesperado porque seria bem mais simples, para um solista da categoria de Aliéksey Vianna, preparar um repertório solo; no entanto ele não só projetou um álbum de quintetos para violão e quarteto de cordas, onde o violão está mais para um inteligente meio de campo que para artilheiro, mas caprichou num álbum duplo. Indispensável porque, ao invés de escolher as duas ou três peças que o violão toca com mais freqüência nessa formação, ele foi atrás das obras de personalidade mais forte, que carregam não só qualidade musical, mas também toda a força de uma cultura nas costas…”
FÁBIO ZANON – DO ENCARTE DO DISCO |